Gostava de ser como os gatos. Sim, como os gatos. Felinos domesticados que só mostram a sua real natureza se, em algum caso, lhes espezinhamos a cauda ou, por obra do Diabo, nos esquecemos de lhes abrir a porta de Fevereiro.
Mas não é por ser um felino domesticado que rejubilaria a minha alma caso fosse um - ser um felino é bom por si, escusa de ter o domesticado como apêndice colado à sua natureza falsa. É sim por ser um gato, e não ser humano. Tudo seria mais difícil, porém mais fácil. Só precisar dos donos para estas pequenas tarefas tão importantes, oh! Quem me dá esse pequeno grande prazer? Ninguém!
Ter que viver às custas da minha alma é demasiado pesado. Se não precisasse de me apegar a quem quer que fosse se não a mim próprio e às minhas garras e dentição aguda e afiada, oh deuses! Há prazer mais genuíno que o de não querer ser amado?
Para ser homem tem que se deixar muita coisa para trás, esquecer muita coisa à frente e não escolher o quê, ou quem tenho que aturar quando for velhinho em frente a uma lareira, sempre preocupado em evitar intoxicação por monóxido de carbono - não a minha, mas das pessoas que me impediriam de viver vivendo se morressem, ainda por mais se fosse por me ter esquecido de uma janela fechada!
Só precisava de uma janela fechada - a janela que os gatos vêm aberta em cada ferida de alguém só, e me pudesse aproveitar como eles se aproveitam, tão ingenuamente e irracionalmente inteligentes, que até chegam a dar dó... Tenham antes dó de nós! Se me pudesse aproveitar disto e viver como um gato, sem ter que dar justificações a não ser na hora de comer ou de mudar a areia, vivia tão dificilmente mais fácil. Sem razões inexplicáveis, sem amores, sem amantes, sem família que nos faça sofrer e nos faça tão bem pelo que sentimos por cada momento de Natal juntos à mesa, nem que seja por pura convenção.
Só precisava de ser um gato.